Aceitar e agradecer a cruz

Olá a todos!
Eis a ideia para vocês refletirem ao longo da semana: “aceitar e agradecer a cruz”.

Outro dia, conversando com uma moça, fiquei impressionado com o seu testemunho e o caminho que percorreu para estar vivendo hoje, com 31 anos, uma vida totalmente normal, trabalhando, fazendo esporte, apesar da doença da qual é portadora. Segue o seu testemunho, extraído de várias postagens do seu blog, com sua autorização (cfr. http://esobreviver.blogspot.com.br/).

Há uns anos atrás, no fervor dos meus 22 anos (FERVOR porque naquele tempo eu realmente vivia em ebulição), numa sexta-feira, dia 22 de julho de 2005, eu comecei a sentir uma queimação na pele de meu peito, como se eu tivesse tido uma queimadura, ou estivesse desenvolvendo algum processo alérgico. Nesse dia eu organizava o chá de bebê de uma de minhas melhores amigas, que seria em minha casa.


Como sempre, correndo, fazendo um milhão de coisas ao mesmo tempo, brigando, rindo, chorando, comendo, trabalhando, passeando com o cachorro, tudo junto, misturado, inacabado, rindo, trabalhando e chorando de novo (…)


No domingo, o dia seguinte ao do chá, acordei com meus braços e costas queimando. Sentia um formigamento como aquele que temos quando sentamos em cima de nossos pés, que aos poucos tomava conta de todo o meu corpo.


Liguei para a médica cardiologista que atendia minha mãe, pois era a pessoa mais próxima que podia nos aconselhar, e ela recomendou que eu procurasse um neurologista.


Na segunda-feira, após a consulta de emergência que consegui com um doutor recomendado, àquela altura já com meu corpo do pescoço para baixo tomado pelo formigamento, queimação e enfraquecimento de meus membros, quase sem conseguir andar sem a ajuda de minha mãe, fui encaminhada para um exame de ressonância magnética de urgência, para verificar o que estava acontecendo em meu sistema nervoso central (…) fui diagnosticada como portadora de esclerose múltipla, uma doença autoimune, sem cura (…)


No dia em que recebi o diagnóstico, deitada na cama do hospital, meio sem saber ainda sobre o que se tratava e sem ter muita força de raciocínio para isso, percebia que algo dentro de mim morria lentamente. Morria uma Paula que acreditava ter o real controle sobre a própria vida. Morria a Paula que planejava seus dias e corria para alcançar todos esses sonhos. Morria uma parte da Paula que conhecia alguma coisa sobre a sua existência. Morria uma Paula que acreditava ser invencível.


Naquele instante, quando o doutor entrou no quarto do hospital e confirmou o diagnóstico, aos poucos, sem conseguir pronunciar uma palavra sequer, sem conseguir chorar, sem conseguir praticamente me mexer do pescoço para baixo, eu descobria que a jornada da minha vida começava exatamente ali (…)

Ao ouvir este testemunho impressionante da Paula contado diretamente a mim na igreja, senti vontade de perguntar-lhe se tinha fé. Neste momento ela olhou para mim e me disse: “padre, com essa doença, é impossível não ter fé; ou você tem fé e acredita em Deus e acredita que tudo isso tem um propósito ou você se revolta e arruína sua vida caindo na depressão”. De fato, é o que ela testemunha abaixo:

Quando estive completamente paralisada, sem saber por onde começar a reverter aquilo que eu vivia, foi a fé que alimentou a força para me recuperar. Hoje, tenho completa certeza de que, se eu não tivesse lutado com essa “força sobre-humana” que existia em meu interior, não estaria aqui agora, contando com saúde, sobre minha trajetória. O que eu fazia em meio a tanto desespero? Eu ficava de joelhos, orando, pedindo e acreditando (…)

E rezando intensamente a Paula teve uma luz de Deus: o mecanismo-chave de superação da minha doença foi uma palavra: a aceitação.

Empurrada por Deus a aceitar a sua doença como vinda das suas mãos, a Paula, vejam só que impressionante, começou a agradecer a doença. E disse algo ainda mais impressionante: que, cada vez que fazia um ato de aceitação e de agradecimento da sua doença, ela melhorava. E assim, além de tomar outras providências humanas como procurar ter uma vida saudável, cuidar a alimentação, fazer relaxamento etc., foi melhorando pouco a pouco, e hoje seu estado atual é de uma pessoa perfeita.

No final do seu testemunho a Paula me disse algo que me impactou profundamente: “padre, quero dizer uma coisa muito importante: essa minha doença é uma bênção! Essa doença mudou a minha vida, transformou-me, lapidou-me por dentro. Eu sofri muito, mas essa doença é uma verdadeira bênção”.

É bonito e realmente impressionante ver num dos posts do seu blog, algumas frases que aprendeu com sua doença: gratidão; fé que move montanhas; todos querem ser diamantes mas nem todos querem ser lapidados; não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses.

Que o testemunho dessa moça sirva para:
– que tenhamos fé e não nos revoltemos com as cruzes que Deus nos envia de vez em quando: uma doença, um problema financeiro, um fracasso, uma dificuldade de relacionamento etc.;
– que entendamos que elas vêm das mãos de Deus e têm um propósito ou vários propósitos; que o propósito principal de Deus é que elas nos lapidem por dentro, nos transformem, nos tornem pessoas melhores, mais evoluídas; Deus quer também transformar e evoluir as pessoas que estão do nosso lado;
– que saibamos aceitá-las e até agradecê-las;
– que olhando para a cruz dessa moça, saibamos perceber que muitas vezes nossas cruzes são muito pequenas se comparadas com outras que muitos estão carregando.

Deus é Amor e o principal desejo de Deus não é o sofrimento, mas a nossa felicidade. Mas Deus sabe que com a dor, subimos de patamar no nível da felicidade, tornando-a mais profunda e mais sólida. Foi isso que a Paula experimentou. Que as palavras de hoje nos sirvam para uma profunda reflexão.

Uma santa semana a todos!

Padre Paulo